Um dia acordou sozinho e estranhou.
Não lembrava o que sonhara, mas seus olhos estavam molhados. Olhou em volta. Não reconhecia aqueles lençóis e fronhas sem cor e nem o edredon lhe era familiar.
Olhou para si mesmo e estranhou seu corpo. Estava nu como sempre dormia, mas era diferente. Algo lhe faltava. Algo essencial que não estava mais ali. O quarto ao seu redor também lhe pareceu confortavelmente desconhecido. A luz que entrava de uma forma diferente, as sombras desenhadas em padrões dos quais não se lembrava, as portas em posições deslocadas do normal. Nada parecia se encaixar na vida que se lembrava.
Levantou-se pelo outro lado da cama, contrário ao que costumava usar. A água do chuveiro bem mais fria do que o normal, a toalha mais áspera do que nunca, o piso frio num toque que o arrepiou de forma estranha. Nada condizia com sua vida de antes.
Tomou seu café em silêncio estranhando os azulejos da cozinha. Com calma, percorreu todos os cômodos da casa procurando por um resquício de familiaridade. Tocou obetos, livros, móveis. Vestiu uma roupa que tinha certeza não era sua, mas que serviu perfeitamente. Calçou sapatos do tamanho exato de seus pés e pegou uma jaqueta da qual gostou da cor. Só o chapéu deixou pendurado no cabide pois esse não lhe era nem um pouco familiar e essa era a única certeza que tinha, a de que nunca usara aquela peça.
Saiu pela porta com certa dificuldade em girar a chave. Parecia haver um jeitinho especial de encaixá-la e ele não se lembrava de como deveria fazer. Ao sair sabia exatamente para onde ir, embora não se lembrasse de modo algum de já ter estado alguma vez naquele lugar. Andando por ruas vagamente desconhecidas, seguiu sem rumo sabendo exatamente onde iria chegar.
E ao chegar chorou.
E ninguém viu.
Back to Top